Enamorado de Deus e da humanidade
Hoje celebramos o aniversário de morte de Igino Giordani, que recebeu de Chiara Lubich o seguinte depoimento: “Giordani sempre foi para nós um símbolo da humanidade, alguém que mantinha a nossa alma aberta para todo o mundo, que impedia qualquer exclusão, qualquer limitação”. Escrevi esse artigo há alguns anos, para a Revista Shalom Maná.
Igino Giordani nasceu em Tívoli, nos arredores de Roma, no dia 24 de setembro de 1894. Primeiro dos seis filhos de Mariano e Úrsula Antonelli. A família não dispunha de muitos recursos materiais mas era riquíssima em espiritualidade.
Agraciado com uma mente brilhante, aprendeu francês, inglês, português, espanhol, romeno, grego e latim. Depois de concluir os estudos elementares no Seminário de Tívoli, graduou-se em Letras e Filosofia pela Universidade de Roma.
Em 1920 casou-se com Mya Salvati. Geraram quatro filhos.
Igino e os homens
Aos 21 anos foi convocado para a guerra. Seu coração apaixonado pela humanidade confessou: “Jamais quis apontar o cano do meu fuzil para as trincheiras adversárias, por medo de matar um filho de Deus”.
Depois da guerra, numa Itália atormentada pela violência fascista, sentiu-se impulsionado a engajar-se na política. Colaborou com o Partido Popular, do qual se originou posteriormente a Democracia Cristã, e como escritor e jornalista, não obstante as punições a que eram submetidos os opositores do regime – a prisão e a morte –, combateu pela liberdade e contra a ditadura que avançava.
Em 1946 foi eleito deputado pela Democracia Cristã. Trabalhou sobretudo pela paz: apresentou proposta de lei permitindo a objeção de consciência contra o serviço militar; fez apelos para um desarmamento geral; fomentou a colaboração entre todos os partidos em favor da paz. “Não se constrói a paz preparando a guerra, mas formando as consciências e atuando a justiça social”, dizia.
Sua postura conquistou-lhe o adjetivo de político ingênuo. Acabou sendo abandonado inclusive por alguns setores católicos. Não foi reeleito em 1953, mas continuou, através de livros e artigos, a desenvolver uma importante obra de educação para a política. Sua obra literária é vastíssima, versando sobre assuntos diversificados. Dos seus livros podemos destacar: Le due Città, de inspiração agostiniana; Laicato e Sacerdozio, verdadeiro tratado de eclesiologia; La rivoluzione cristiana, expressão madura de seu pensamento político e social; Diario di fuoco, traduzido para o português pela Editora Cidade Nova e Memorie di un cristiano ingenuo, sua autobiografia publicada depois de sua morte.
Seu empenho fundamental era afirmar a validade do cristianismo na solução dos problemas do homem e a necessidade de uma ação dos homens de fé, a começar pelos intelectuais, como Igreja “militante”.
Igino e Deus
Ele, que desde a infância teve uma educação pautada no Evangelho, iniciou uma busca mais profunda de união com Deus em meio às ocupações terrenas no hospital, enquanto sofria as dores provocadas pelos ferimentos de guerra, em 1916, quando recebeu de uma freira os escritos de Contardo Ferrini (hoje canonizado). A descoberta de que um leigo também pode almejar a santidade não o deixou mais em paz.
Em 1948, recebeu no seu gabinete de deputado a visita de Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, e foi incendiado pelo seu carisma. Ele assim define esse encontro: “De algum modo, eu dominava todos os setores da cultura religiosa: a apologética, a ascética, a mística, a dogmática, a moral... mas as possuía apenas culturalmente, não as vivia interiormente... nas primeiras palavras de Chiara Lubich percebi algo novo: o timbre de voz revelava uma convicção profunda que nascia de um sentimento sobrenatural. Era uma voz pela qual, sem me dar conta, sempre havia esperado. Ela colocava a santidade ao alcance de todos, derrubava os portões que separavam o mundo leigo da vida mística. Aproximava Deus: fazia com que o sentíssemos pai, irmão, amigo, tornava-o presente para a humanidade... Algo aconteceu dentro de mim: a idéia de Deus deu lugar ao amor de Deus, à imagem ideal do Deus vivo”.
Tornou-se o primeiro focolarino casado e o inspirador dos setores do Movimento dos Focolares dedicados à renovação das famílias, à preocupação com os aspectos concretos da vida social, ao diálogo ecumênico e à busca da unidade de toda a família humana.
Igino Giordani concluiu sua vida terrena no dia 18 de abril de 1980, deixando um rastro de verdadeiro testemunho de vida.
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