João de Yepes nasceu em Fontiveros (Ávila) no ano de 1542. Filho de Gonzalo de Yepes e Catalina Álvarez, teve como irmãos de sangue Francisco e Luís.
Sua infância não foi fácil. Antes mesmo de completar 10 anos de vida, perdeu o pai e o irmão Luís. A família, a procura de melhores condições de sobrevivência, migrou algumas vezes até fixar-se em Medina del Campo. Na adolescência e juventude, dedicou-se aos estudos e ocupou-se como acólito; trabalhou como carpinteiro, alfaiate, pintor, entalhador, office-boy e ajudante de enfermeiro.
No entanto, seu coração desejava trilhar outros caminhos e, em 1563, recebeu o hábito religioso dos Carmelitas, mudando o nome para Frei João de São Matias.
1567 é um ano bastante importante na vida de Frei João de São Matias. Ordena-se sacerdote, celebra a primeira Missa e encontra-se pela primeira vez com Santa Teresa de Ávila.
Sua primeira experiência como carmelita não foi muito positiva. O Carmelo sofria a “crise do burguesismo”, que não favorecia a vida interior. Ao concluir os estudos de Teologia, cogitou a possibilidade de sair do Carmelo e ingressar na Cartuxa, onde teria um estilo de vida mais evangélico e condizente com suas aspirações ascéticas. Mas o encontro com Santa Teresa põe fim a esse dilema de João de São Matias e ao dilema de Teresa de Ávila, que desejava ampliar sua reforma também aos conventos masculinos do Carmelo, e “procurava” o monge que correspondesse a esse ideal.
No ideal proposto pela Madre Teresa..., Frei João vê a síntese ideal entre contemplação e atividade. Será um discípulo dócil na escola de Teresa, acolhe com amor as intenções da Madre, aprende o novo estilo de vida: oração, mortificação, solidão, que favoreçam um clima de liberdade interior, uma intensa vida comunitária animada pela alegria do recreio fraterno. No ambiente carmelitano, João dá o melhor de si mesmo, e recebe a formação necessária para dar início à reforma entre os frades” (Fr. Patrício Sciadini, introdução das Obras Completas de São Joào da Cruz).
É assim que, aos 23 anos de vida, “transforma-se” em Frei João da Cruz, o “sócio” de Madre Teresa na reforma carmelitana. São João da Cruz é um místico amadurecido no sol do sofrimento, provado por Deus através de noites da fé; não compreendido pelos homens. O que ele diz traz o carimbo da experiência pessoal, não se deixa influenciar com facilidade pelas circunstâncias ou se amedrontar diante de um futuro que aparece grávido de sofrimentos ... É na monotonia da vida, nas feridas abertas pelas incompreensões, que desabrocha a santidade do primeiro Carmelita Descalço, severo e exigente consigo mesmo, terno e delicado com os que o circundam” (ibid).
Foram as incompreensões que o fizeram duas vezes prisioneiro dos Carmelitas Calçados. Da primeira vez os Calçados de Ávila o levaram a Medina, mas logo foi libertado por intervenção do Núncio. Em 1577, na noite do dia dois de dezembro, foi retirado violentamente de “sua casinha da Encarnação de Ávila e levado ao convento dos Calçados de Toledo, onde ficou recluso no cárcere conventual durante oito meses; ali compôs seus primeiros poemas místicos.
Esse homem de pequena estatura, apelidado de “meio homem”, revelou-se, na verdade, um gigante da mística. Ele, que declarou: “Em mim eu não vivo já, e sem Deus viver não posso; pois sem ele e sem mim quedo, este viver que será? Mil mortes se me fará, pois minha mesma vida espero, morrendo porque não morro. Esta vida que aqui vivo é privação de viver; e assim, é contínuo morrer até que viva contigo. Ouve, meu Deus, o que digo, que esta vida não a quero pois morro porque não morro” (Obras p. 40).
Os apaixonados por Deus, certamente, com João da Cruz já clamaram: “Extingue os meus anseios, porque ninguém os pode desfazer; e vejam-te meus olhos, pois deles és a luz, e para ti somente os quero ter. Mostra tua presença! Mate-me a tua vista e formosura; olha que esta doença de amor jamais se cura, a não ser com a presença e com a figura”.
Depois de uma vida preenchida com os “afazeres” divididos e conciliados entre as atividades próprias do Carmelo e viagens para fundação e acompanhamento dos conventos dos Descalços e escritos, o ano de 1591 se lhe apresenta como um tempo de dores particulares. Sai do Capítulo de Madri, em junho desse ano, sem nenhum cargo; o abandono e uma surda perseguição caem sobre ele. Em agosto, nele aparecem “umas pequenas calenturas” que nunca cedem. Até que no dia 14 de dezembro morre santamente em Úbeda, aos 49 anos de idade. Em 1593, seu corpo foi trasladado para Segóvia, onde se encontra até hoje.
No dia 25 de janeiro de 1675, foi beatificado pelo Papa Clemente X. O Papa Bento XIII o canonizou no dia 27 de dezembro de 1726. Aos 24 de agosto de 1926, Pio XI o proclamou Doutror da Igreja. No dia 21 de março de 1925, foi proclamado Padroeiro dos poetas espanhóis.
Ouçamos o conselho que esse grande mestre de espiritualidade lança aos que, realmente, desejam acertar na busca da Vontade do Senhor: “Não faça coisa alguma, nem diga palavra alguma, que Cristo não faria ou não diria se se encontrasse nas mesmas circunstâncias de você, e tivesse a mesma saúde e idade suas ... Nada peça a não ser a cruz, e precisamente sem consolação, pois isso é perfeito ... Renuncie aos seus desejos e encontrará o que o seu coração deseja.” (Sgarbossa e Giovannini; 1996: pp.401-402).
Bibliografia:
João da Cruz, São. Obras completas. 2ª ed. Petrópolis: Vozes e Carmelo Descalço do Brasil, 1988.
Sgarbossa, Mario e Giovannini, Luigi. Um santo para cada dia. 4ª ed. São Paulo: Paulus, 1996.