domingo, 11 de março de 2012

Livro: Pobre não tem sorte 2 – Alguma coisa acontece no meu coração


Livro delicioso! Nesse livro Leila Rego conta, de uma forma super divertida, a história de Mariana Lourveira, uma moça descolada e apaixonada por maquiagem, perfume, bolsa, sapato, moda e, acima de tudo, por seu ex-namorado.

Mariana deixa Presidente Prudente depois que o noivo rompe com ela no dia em que se casariam e vai morar em São Paulo para amadurecer, crescer como pessoa, deixar as futilidades e priorizar o que realmente importa na vida.

Sua busca por um emprego é uma aventura a parte, acontece de tudo, exceto a pobre garota conseguir uma colocação no mercado de trabalho. Quando parece que não há alternativa senão voltar para a casa dos pais, no interior, Mariana consegue um emprego numa rede hoteleira e se encontra, profissional e pessoalmente.

Torna-se blogueira nas horas vagas, amplia seu círculo de amizades e, quando decide viajar para esquecer o ex-namorado, quase um ano depois do rompimento, eis que o rapaz vai encontrá-la em Buenos Aires e retomam o relacionamento.


Rego, Leila. Pobre não tem sorte 2 – Alguma coisa acontece no meu coração. São Paulo: All print, 2010.

Palavra de Vida: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.” (Jo 6,68)

                Jesus falava do Reino de Deus às multidões que acorriam. Fazia isso com palavras simples, com parábolas tiradas do dia a dia. E, no entanto, o seu falar exercia um fascínio especial. O povo se encantava com o seu ensinamento, porque ele ensinava como quem tem autoridade, não como os escribas. Inclusive os guardas enviados para prendê-lo, ao serem questionados pelos sumos sacerdotes e pelos fariseus por não terem cumprido as ordens, responderam: “Ninguém jamais falou como este homem” (Jo 7,46).
              O Evangelho de João nos apresenta também luminosos diálogos individuais, com pessoas como Nicodemos ou a samaritana. Com os seus apóstolos, Jesus vai ainda mais em profundidade: fala abertamente do Pai e das coisas do Céu, não mais recorrendo a figuras; eles sentem-se conquistados, e não voltam atrás nem mesmo quando não compreendem completamente as suas palavras, ou quando elas parecem ser exigentes demais.
              Esta palavra é dura” (Jo 6,60), responderam-lhe alguns discípulos quando o ouviram dizer que lhes daria o seu corpo para comer e o seu sangue para beber.
              Jesus, vendo que os discípulos se retiravam e não iam mais com ele, dirigiu-se aos doze Apóstolos: “Vós também quereis ir embora?” (Jo 6,67).
              Pedro, que já se sentia vinculado a Jesus para sempre, fascinado pelas palavras que tinha ouvido pronunciar por Ele desde o dia em que o encontrara, respondeu em nome de todos:
             
              “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.”

               Pedro tinha entendido que as palavras do seu Mestre eram diferentes das palavras dos outros mestres. As palavras que vão da terra para a terra pertencem à terra e têm o destino da terra. As palavras de Jesus são espírito e vida porque vêm do Céu. Elas são uma luz que desce do Alto e tem a potência do Alto. As suas palavras possuem uma densidade e uma profundidade que as outras palavras não têm, sejam elas de filósofos, de políticos ou de poetas. São “palavras de vida eterna” (Jo 6,68) porque contêm, expressam e transmitem a plenitude daquela vida que não tem fim, porque é a própria vida de Deus.
              Jesus ressuscitou e vive. E as suas palavras, embora pronunciadas no passado, não são uma simples recordação, mas são palavras que Ele dirige hoje a todos nós e a cada pessoa de todos os tempos e de todas as culturas. São palavras universais, eternas.
             As palavras de Jesus! Devem ter sido a sua maior arte, se assim pudermos dizer. O Verbo, falando com palavras humanas: que conteúdo, que intensidade, que inflexão, que voz!
             “Um dia – conta-nos, por exemplo, Basílio Magno (330-379, bispo de Cesareia, um dos grandes Padres da Igreja) – como que despertando de um longo sono, olhei a luz maravilhosa da verdade do Evangelho e descobri a vaidade da sabedoria dos príncipes deste mundo.” (Ep. CCXXIII, 2).
             Teresinha do Menino Jesus escreve, numa carta de 9 de maio de 1897: “Às vezes, quando leio certos tratados espirituais… o meu pobre e pequeno espírito não demora em se cansar. Fecho o livro dos sábios, que despedaça a minha cabeça e resseca o meu coração, e tomo em mãos a Sagrada Escritura. Então, tudo se torna luminoso para mim; uma só palavra descortina horizontes infinitos à minha alma e a perfeição me parece fácil” (Lettera 202; Scritti, Postulação Geral dos Carmelitas Descalços, Roma 1967, p. 734).
             Sim, as palavras divinas saciam o espírito, feito para o infinito; iluminam interiormente não só a mente, mas todo o ser, porque são luz, amor e vida. Elas dão a paz – aquela que Jesus define sua: “a minha paz” – inclusive nos momentos de inquietação e de angústia. Dão alegria plena, mesmo em meio à dor que por vezes atormenta a alma. Dão força, sobretudo quando sobrevém a perplexidade e quando nos desencorajamos. Libertam, porque abrem o caminho da Verdade.

             “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna.”

            A frase deste mês lembra-nos que o único Mestre que queremos seguir é Jesus, mesmo quando as suas palavras podem parecer duras ou exigentes demais: ser honesto no trabalho; perdoar; preferir colocar-se a serviço do outro em vez de pensar de modo egoísta em si mesmo; permanecer fiel na vida familiar; assistir um doente terminal sem ceder à ideia da eutanásia…
           São muitos os mestres que nos induzem a adotar soluções fáceis, a fazer concessões. Queremos escutar o único Mestre e segui-lo, a Ele, o único que diz a verdade, que tem “palavras de vida eterna”. Assim também nós podemos repetir essas palavras de Pedro.
           Neste período de Quaresma, em que nos preparamos para a grande festa da Ressurreição, devemos colocar-nos efetivamente na escola do único Mestre e tornar-nos seus discípulos. Também em nós deve nascer um amor apaixonado pela Palavra de Deus. Vamos acolhê-la com atenção quando for proclamada nas igrejas; vamos ler a Palavra, estudá-la, meditá-la…
          Mas nós somos chamados, sobretudo, a vivê-la, de acordo com o ensinamento da Escritura: “Todavia, sede praticantes da Palavra, e não meros ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (Tg 1,22). É por isso que nós, a cada mês, consideramos uma Palavra em especial, deixando que ela nos penetre, nos modele, “seja ela a viver em nós”. Vivendo uma Palavra de Jesus, vivemos todo o Evangelho, porque em cada uma de suas Palavras Ele se doa inteiramente, é Ele mesmo que vem viver em nós. É como se uma gota de sabedoria divina Dele, do Ressuscitado, lentamente fosse escavando-nos por dentro e substituindo o nosso modo de pensar, de querer, de agir em todas as circunstâncias da vida.

                                                    Chiara Lubich

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Livro: O monge e o executivo

O monge e o executivo
James C. Hunter

Um livro surpreendente, que apresenta excelentes reflexões sobre a vida, afinal, tudo caminha de acordo com os relacionamentos, consigo, com as outras pessoas e com o numinoso.
Dentre tantas reflexões importantes, Hunter lembra a célebre frase de Margareth Tatcher: “Estar no poder é como ser uma dama. Se tiver que lembrar às pessoas que você é, você não é”.
Uma vez que o livro trata de liderança, afirma que você gerencia coisas, mas pessoas você lidera.
Lembra a importância de ouvir sempre e falar quando – e somente quando – tem vontade, ou seja, quando tem algo a dizer.
Estabelece a diferença entre poder e autoridade. Segundo ele, poder é sinônimo de coação, autoridade é sinônimo de influência; pelo poder se consegue que as pessoas façam algo embora elas não queiram, pela autoridade, elas fazem o que você quer de bom grado.
Segundo Hunter, comportamento é escolha e a confiança é a cola dos relacionamentos. E mais: compromisso é ater-se – manter-se fiel – às escolhas.
Para quem acredita que só é possível ser feliz possuindo muito dinheiro, Hunter diz que “os maiores prazeres da vida são totalmente grátis”, como o pôr do sol, a brisa do mar, o beijo da pessoa amada.
O autor fala também da importância de desafiar os paradigmas acerca de si, dos outros e do mundo; isto é, ter coragem de arriscar, fazer diferente e permitir ver o outro de maneira diferente.
Para ele, liderar é servir, tendo a capacidade de suprir as reais necessidades dos liderados. Para isso, é imprescindível estabelecer a diferença entre vontade e necessidade.
Falando sobre a importância de tecer críticas em particular e elogios em público, cita a frase de William James: “no centro da personalidade humana está a necessidade de ser apreciado”.
Para ele, o maior papel do líder é amar. E “amor não é como nos sentimos a respeito dos outros, mas como nos relacionamos com os outros”. Afinal, “tudo o que o líder faz envia uma mensagem”.
Ainda sobre o amor, “os sentimentos vêm e vão... é o compromisso que nos sustenta”.
Por fim, a mensagem de que não é possível mudar a ninguém senão a si mesmo: “O homem é essencialmente autodeterminante. Ele se transforma no que fez de si mesmo” (Viktor Frankl). Isso não é fácil, é preciso fazer escolhas e ter disciplina. Afinal, “disciplina tem como objetivo ensinar-nos a fazer o que não é natural”. E, finalmente, “... não vemos o mundo como ele é, nós o vemos como somos”.


Hunter, James C. O monge e o executivo; uma história sobre a essência da liderança. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

Palavra de Vida: “Convertei-vos e crede no Evangelho.” (Mc 1,15)

É assim que começa, no Evangelho de Marcos, o anúncio de Jesus ao mundo, a sua mensagem de salvação: “Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus se aproxima. Convertei-vos e crede no Evangelho”.
Com a vinda de Jesus inicia uma era nova, o tempo da graça e da salvação. Suas primeiras palavras são um convite a abraçar a grande novidade, a própria realidade do Reino de Deus, que Ele coloca ao alcance de todos, perto de cada homem.
Jesus indica imediatamente o caminho: converter-se e crer no Evangelho, isto é, mudar radicalmente de vida e aceitar, em Jesus, a palavra que Deus dirige por meio Dele à humanidade de todos os tempos.
São duas coisas que caminham lado a lado: a conversão e a fé. Uma não existe sem a outra. Ambas nascem pelo contato com a Palavra viva, pela presença de Jesus, que também hoje repete às multidões:

“Convertei-vos e crede no Evangelho.”

A Palavra de Deus acolhida e vivida realiza uma completa mudança de mentalidade (= conversão). Coloca no coração de todos – europeus, asiáticos, australianos, americanos, africanos – os sentimentos de Cristo diante das circunstâncias, das pessoas e da sociedade.
Mas de que modo o Evangelho pode realizar o milagre de uma profunda conversão, de uma fé nova e luminosa? O segredo está no mistério que as Palavras de Jesus encerram. Elas não são simplesmente exortações, sugestões, indicações, diretrizes, ordens ou comandos. Na Palavra de Jesus está presente o próprio Jesus a falar, a nos falar. As suas Palavras são Ele mesmo, são o próprio Jesus.
É por isso que nós o encontramos na Palavra. E acolhendo a Palavra no nosso coração, como Ele quer que seja acolhida (ou seja, estando dispostos a traduzi-la em vida), tornamo-nos uma só coisa com Ele, e Ele nasce ou cresce em nós. É esse o motivo pelo qual cada um de nós pode e deve acolher esse convite tão urgente e tão exigente de Jesus.

“Convertei-vos e crede no Evangelho.”

Pode ser que alguém ache as palavras do Evangelho muito elevadas e difíceis, muito distantes do modo comum de viver e de pensar, e se sinta tentado a não escutá-las, a desanimar. Mas isso acontece quando se pensa que se deve remover sozinho a montanha da própria incredulidade. Ao passo que bastaria esforçar-se em viver ainda que fosse uma única Palavra do Evangelho, para encontrar nela uma ajuda inesperada, uma força sem igual, uma lâmpada para guiar os próprios passos (cf. Sl 118,105); porque a comunhão com aquela Palavra – sendo essa uma presença de Deus – liberta, purifica, converte, conforta, comunica alegria, doa sabedoria.

“Convertei-vos e crede no Evangelho.”

Quantas vezes durante o dia essa Palavra pode ser uma luz para nós! Toda vez que deparamos com a nossa fraqueza ou com a fraqueza dos outros, cada vez que nos parecer absurdo ou impossível seguir Jesus, quando as dificuldades tentarem nos abater, essa Palavra nos pode fazer alçar vôo, pode ser para nós uma rajada de ar fresco, um estímulo a recomeçar.
Bastará uma pequena e rápida “conversão” de rota para sairmos do isolamento do nosso eu e nos abrirmos a Deus, para experimentarmos uma vida diferente, a vida verdadeira.
Depois, se pudermos compartilhar essa experiência com alguma pessoa amiga que também escolheu o Evangelho como seu código de vida, veremos a comunidade cristã brotar ou reflorescer ao nosso redor.
Porque a Palavra de Deus vivida e comunicada realiza também este milagre: dá origem a uma comunidade visível, que se torna fermento e sal da sociedade, testemunhando Cristo em todos os pontos da terra.

Chiara Lubich

http://voluntariosdesaopaulo.blogspot.com/2012/02/palavra-de-vida-fevereiro-de-2012.html

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Livro: O velho e o mar

O velho e o mar
Ernest Hemingway

Santiago é um velho pescador que, solitário, diariamente vai ao mar exercer seu ofício de maneira infrutífera. Diz-se que a sorte não está com ele, por isso não consegue pescar.
O velho é admirado por Manolín, um jovem que, por ser menor de idade, teve de abandonar Santiago à solidão do pequeno barco, pois seus pais não permitiram que continuasse a pescar com alguém abandonado pela sorte.
Certo dia o velho Santiago pesca um peixe imenso, que arrasta seu barco durante dias. É uma luta intensa, pois ambos – pescador e peixe – se recusam a abandonar a disputa. O velho Santiago, na sua solidão, afirma que o homem não nasceu para a derrota e, mesmo machucado, não larga o anzol.
Tubarões atacam seu peixe, deixando apenas a carcaça, mas Santiago volta ao porto ostentando sua vitória, afinal, pescou um peixe grande. De volta ao lar, dorme e sonha com leões.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Livro: Dê tempo a si mesmo...

Dê tempo a si mesmo...
É a sua vida

Notker Wolf

Notker Wolf é um beneditino que vive bem o momento presente, com os olhos fixos na eternidade. Escreve com primazia sobre suas experiências e descobertas nesse eterno caminhar entre os homens rumo a Deus.
Nesse maravilhoso livro, discorre sobre o tempo, como tem tentado aproveitá-lo, encarando-o como presente, e, exatamente por entendê-lo como dádiva, busca atribuir a cada coisa e pessoa – inclusive a si mesmo – o verdadeiro valor.
Nesse livro colhi muitas pérolas:
 “A questão é humanizar o tempo”.
“... quando alguém vem falar comigo, eu não consulto o relógio nem tenho pressa”.
“... o tempo da vida não é uma mercadoria, e sim uma dádiva”.
“A vida precisa de tempo. Se não reservo mais tempo algum para mim mesmo, a vida deixa de ter valor”.
“... aquele que vai mal consigo mesmo, para quem poderá ser bom?”
“Conceder algo a si mesmo é indício de um coração vasto, de generosidade e de uma comunicativa e benevolente alegria de viver, que não exclui os outros”.
“Podemos ser bons para nós mesmos e devemos sê-lo também com os outros”.
“A alegria é o mais poderoso antídoto contra o medo”.
“Nossa desgraça não é a morte; o que nos causa desgraça é tentar excluí-la, como se pudéssemos fugir dela”.
“A morte... Não é uma ameaça, e sim um lembrete... Olhe agora para o que realmente tem valor”.
“... tanto faz você ser leão ou gazela, pois quando o Sol se ergue é preciso correr”.
“O ritmo é um fator da vida, e sempre foi observado também como um elemento criador”.
“De que adianta caminhar, se não é pelo caminho correto?”
“... só posso ser flexível a partir de um ponto fixo de observação, ou então me perco”.
“Aqui e lá, simplesmente “estou em casa”... Onde quer que eu chegue, estou em casa”. Embora seja necessário o retorno ao porto seguro vez por outra, para recarregar as baterias e, de novo, estar preparado para a viagem.
“Deveríamos tocar a nossa própria vida em tempos diversos, como uma peça musical. Não só na música, mas também na vida, há um mundo de possibilidades: andante, presto, allegro. Tempos de repouso e relax. E tempos de prestissimo”... “Há um crescendo e um diminuendo. E onde geralmente se improvisa”.
“Pressa e pressão andam juntas”.
“O elemento da liturgia que traz a felicidade é o fato de nos desligarmos das preocupações com o futuro e da prisão no passado, e das intermináveis obrigações do dia a dia”.
“O que há por trás da pressa? Acho que é o medo”.
“... estar totalmente ali”... “Atenção pela metade não funciona”.
“Time is honey”.
“Ter capacidade de esperar e paciência também significam: antes de tudo, saber renunciar alguma vez”... “... frustração e desapontamento fazem parte da vida de todos”.
“... o dia é sempre curto demais para mim”.
“Não concedo a ninguém qualquer poder sobre mim”.
“Aprender a esperar pelos outros é um excelente exercício”.
“Seja bom para o seu corpo, para que a alma tenha prazer em morar nele” (Teresa d’Ávila).
“Só a partir das pessoas e de exemplos cotidianos as crianças aprendem aquilo de que mais precisam: aprendem a viver”.
“O caminho da felicidade sempre acarreta renúncia e perseverança”.
“Quem é grato não é apressado”.
“A convicção de estar nas mãos de Deus me dá uma serenidade básica”.
“... aceito as coisas conforme são e, afinal, a realidade é esta”.
“Que bênção estar satisfeito com a vida que se teve e, em plena paz, poder dizer “Adieu”!”


Notker, Wolf. Dê tempo a si mesmo... É a sua vida. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Livro: Como um místico amarra os seus sapatos

Como um místico amarra os seus sapatos
O segredo das coisas simples

Lorenz Marti
Editora Vozes

Marti fala sobre a expectativa que muitas vezes temos de que o místico seja um ser quase sobrenatural, que faz as coisas de maneira extraordinária. Então ele perpassa momentos vividos por místicos de religiões diversas e sua observação revela que o que torna o místico um ser surpreendente é o modo como ele realiza as atividades mais corriqueiras, como ele dá sentido àquilo que é normal e corriqueiro no cotidiano do ser humano.
Relembra a afirmação agostiniana de que “O coração inquieto é a raiz da peregrinação”. Aliás, convida a nos tornarmos “gente do caminho”, como eram designados os primeiros cristãos. Evoca um antigo ditado: “Devemos caminhar como peregrinos, livres, despojados e verdadeiramente vazios. Juntar coisas, segurar e agir muito só torna o nosso andar pesado”.
Indica a justa medida do olhar sobre si: “Quando giro em redor de mim mesmo, eu afundo... Não preciso com isso perder a visão de mim mesmo. Mas preciso parar de olhar apenas para mim mesmo”.
Fala da beleza de nos sentirmos sempre no início, ou seja, por mais que tenhamos vivido ou feito ou aprendido, nunca é o suficiente, sempre há muito a fazer e a aprender. “O espírito do principiante é como uma criança pequena que descobre o mundo”.
O espírito do principiante aproxima da criança. Segundo Marti, é preciso aprender a perguntar como criança, com o espírito aberto de fato. Algumas vezes perguntamos, mas como imperador, de cima do trono, com a postura de quem, mais que perguntar, ordena, sabe tudo, pode tudo. “Imperador e criança: ambos convivem em mim... posso aprender a descer do trono da minha prepotência e redescobrir o mundo aos pés de uma criança”.
Ele defende que a espiritualidade é uma declaração de amor ao que é totalmente comum. Às coisas corriqueiras do cotidiano, em geral, não atribuímos valor e, por isso, simplesmente, tentamos fazê-las apressadamente, para liquidá-las. “O importante é que estou envolvido naquilo com todo o meu coração, e não simplesmente “liquidando” algo. E que sei valorizar aquele momento. E que permaneço e não fujo em pensamentos a algum futuro imaginário”.
Algo digno de nota, também, quando se fala em mística e espiritualidade, é, sem dúvida, o fato de não se levar muito a sério. Marti cita o escritor inglês G.K. Chesterton: “Os anjos voam porque não se levam muito a sério, sentem-se leves”.
Finalmente, a importância do outro, afinal “      Minha vida não pode ser separada da vida de outras pessoas, da vida dos animais, das plantas e das árvores. Eu dependo delas e elas precisam de mim... A capacidade de dedicar-se aos outros e cuidar deles é o que torna o ser humano especial”.
Para finalizar, uma pérola de Francisco de Sales: “Proteja-se contra a pressa, a tristeza e o medo”. E ainda a lembrança de que o mundo é como um espelho. Reza a lenda que o fabulista Esopo estava sentado à beira de uma estrada perto de Atenas quando um viajante perguntou-lhe: “Como são as pessoas em Atenas?” Esopo respondeu: “Diga-me primeiro de onde você vem e como são as pessoas de lá”. O viajante falou: “Venho de Argos, onde as pessoas são antipáticas, incorretas e briguentas, por isso fui embora”. Esopo, então, falou: “Que pena, pois em Atenas as pessoas também são assim”. Um pouco mais tarde passou outro viajante, que perguntou a Esopo a mesma coisa. E, quando Esopo lhe perguntou de onde vinha e como eram as pessoas lá, respondeu entusiasmado: “Venho de Argos, onde as pessoas são gentis, abertas e hospitaleiras”. Esopo falou: “Que bom, pois em Atenas as pessoas também são assim”.