sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

La coperta del mondo

Di quanti colori sarà
la coperta del mondo
tra dune, autostrade a milioni e grattacieli
carezze di cuori, di occhi e di mani
come stelle posate sul fango.

Di quanti colori sarà
la coperta del mondo
dentro un destino
di terra, di terra e di cielo
una regola d’oro
che stiamo scoprendo
come piccole anime
e un grande girotondo.

E quanto calore darà
la coperta del mondo
tra case, tra porte a milioni
ancora da aprire
tra ponti infiniti d’attraversare
nell’attesa di un come, di un quando.

E quanto calore darà
la coperta del mondo
dove il sole e la luna
la rosa e la spina
il vento e la vela
si stanno cercando
come piccole musiche
e un grande girotondo.

Di quanti stupori vivrà
la coperta del mondo
unica trama che insieme,
che insieme ci lega
miliardi di storie,
solo una strada
che profuma di muschio
e di mango.

Di quanti stupori vivrà
la coperta del mondo
dove il buio e le luci
il ghiaccio e le braci
il silenzio e le voci
si stanno abbracciando
come piccole anime
dentro l’anima del mondo.

Gen Verde


Per sentirla: http://www.youtube.com/watch?v=ALNHetJ1v4k&feature=related

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cardeal Van Thuan

O Cardeal vietnamita Francisco Xavier Nguyen Van Thuan teve como lema de vida a esperança que enche de amor o momento presente. Mantido prisioneiro pelo regime comunista durante 13 anos, 9 dos quais em total isolamento, não ficou de “braços cruzados” esperando a libertação; ao contrário, com a criatividade própria do amor, fez-se amigo dos carcereiros, construiu para si um crucifixo, celebrou a eucaristia clandestinamente e escreveu três livros. Depois de uma vida luminosa, morreu vitimado pelo câncer em setembro de 2002.

Francisco Nguyen Van Thuan nasceu no dia 17 de abril de 1928, numa família que conta numerosos mártires da fé. Sua mãe, todas as noites, contava-lhe histórias bíblicas e narrava-lhe testemunhos de mártires, especialmente de seus antepassados.
Van Thuan foi ordenado sacerdote em 11 de junho de 1953. Formado em Direito Canônico, em Roma, retorna ao Vietnã e é nomeado professor e reitor do seminário.
Em 1967, é ordenado Bispo de Nhatrang, no centro do Vietnã, diocese pela qual sempre confessou predileção. Oito anos depois, Paulo VI o nomeou Arcebispo coadjutor de Saigon. Ardoroso animador dos leigos e jovens, prepara-os para participarem dos conselhos pastorais.
Poucos meses depois, porém, foi preso pelo regime comunista: “Disseram-me que minha nomeação era fruto de um complô entre o Vaticano e os imperialistas para organizar a luta contra o regime comunista”, conta Van Thuan. Era o dia de Nossa Senhora da Assunção, 15 de agosto de 1975.
Rumo à prisão, tomou uma decisão importantíssima: “Vinham-me à mente muitos pensamentos confusos: tristeza, abandono, cansaço depois de três meses de tensões... Porém, em minha mente surgiu claramente uma palavra que dispersou toda a escuridão, a palavra que Monsenhor John Walsh, Bispo missionário na China, pronunciou quando foi libertado depois de doze anos de cativeiro: ‘Passei a metade da minha vida esperando’. É verdadeiríssimo: todos os prisioneiros, inclusive eu, esperam a cada minuto sua libertação. Porém, depois decidi: ‘Eu não esperarei. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor’.”
De fato, foi o que fez: amou, amou, amou. As condições não eram favoráveis. Durante alguns meses esteve confinado numa cela minúscula, sem janela, úmida, que para respirar passava horas com o rosto enfiado num pequeno buraco no chão. A cama era coberta de fungos.
Os nove primeiros anos foram terríveis: “uma tortura mental, no vazio absoluto, sem trabalho, caminhando dentro da cela desde a manhã às nove e meia da noite para não ser destruído pela artrose, no limite da loucura”.
Buscava conversar com os carcereiros, que resistiam, mas logo eram seduzidos por sua gentileza e inteligência. Contava-lhes sobre países e culturas diferentes. Isso chamava sua atenção e instigava a curiosidade. Logo começavam a fazer perguntas, o diálogo se estabelecia, a amizade se enraizava. Chegou a dar aulas de inglês e francês.
No começo, a cada semana os guardas eram substituídos, mas logo as autoridades, para evitar que o exército todo fosse “contaminado”, deixou uma dupla de carcereiros fixa. Estes espantavam-se de como o prisioneiro pudesse chamar de amigos os seus carcereiros, mas ele afirmava que os amava porque esse era o ensinamento de Jesus.
Como o amor é criativo, Van Thuan encontrou também um jeito de se comunicar com seu rebanho: “Em outubro de 1975, fiz um sinal a um menino de sete anos, Quang, que regressava da missa às 5 horas, ainda escuro: ‘Diz à tua mãe que me compre blocos velhos de calendários’. Mais tarde, também na escuridão, Quang me traz os calendários, e em todas as noites de outubro e novembro de 1975 escrevi da prisão minha mensagem ao meu povo. Cada manhã o menino vinha recolher as folhas para levá-las à sua casa e fazer que seus irmãos e irmãs copiassem-na”. Assim foi escrito o livro “O Caminho da Esperança”, posteriormente publicado em oito idiomas: vietnamita, inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, coreano e chinês.
Em 1980, na residência obrigatória de Giang-xá, no Norte do Vietnã, sempre de noite e em segredo, escreveu seu segundo livro: “O caminho da esperança à luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II”; depois o terceiro livro: “Os peregrinos do caminho da esperança”.
Sempre inspirado pela criatividade amorosa, Van Thuan escreveu uma carta aos amigos pedindo que enviassem um pouco de vinho, como remédio para doenças estomacais. Assim, a cada dia, três gotas de vinho e uma de água eram suficientes para trazer Jesus eucarístico à prisão. Os pedacinhos de pão consagrado eram conservados em papel de cigarro, guardado no bolso com reverência. De madrugada, ele e os poucos católicos detidos ali davam um jeito de adorar o Senhor escondido com eles.
Um dia, enquanto trabalhava de lenhador, Van Thuan pediu ao amigo carcereiro: “Queria cortar um pedaço de madeira em forma de cruz... Feche os olhos, farei agora e serei muito cauteloso. Você vai andando e me deixa só”. Assim, conseguiu como companheira aquela rústica cruz feita por ele mesmo.
Para completar sua obra, pediu: “Amigo, você me consegue um pedaço de fio elétrico?” Este ficou espantado, sabia que quando prisioneiros conseguem fios, suicidam-se. Mas Van Thuan explicou: “Queria fazer uma correntinha para levar minha cruz”. Saindo da prisão, com uma moldura de metal, aquele pedaço de madeira tornou-se sua cruz peitoral.
O Cardeal Van Thuan foi libertado no dia 21 de novembro de 1988. Em 1994 deixou o Vietnã e foi para Roma, onde presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz.
Foi criado Cardeal em 21 de fevereiro de 2001. Escreveu mais um livro: “Testemunhas da esperança”, no qual relata sua experiência de prisioneiro. Fazia questão de dizer que não se trata de um livro para fazer denúncias, mas testemunhar o dom da esperança. Vitimado pelo câncer, faleceu no dia 17 de setembro de 2002.

Os cinco defeitos de Jesus
Van Thuan declara-se apaixonado pelos defeitos de Jesus e os descreve no livro “Testemunhas da esperança”:

PRIMEIRO DEFEITO: JESUS NÃO TEM MEMÓRIA
No calvário, no auge da indescritível agonia, Jesus ouve a voz do ladrão à sua direita: “Jesus, lembra-te de mim quando estiveres em teu reino” (Lc 23,43). Se fosse eu, teria respondido: “Não vou esquecê-lo, mas seus crimes devem ser pagos por longos anos no purgatório”. No entanto, Jesus respondeu-lhe: “...hoje estarás comigo no Paraíso” (Lc 23,43). Jesus esqueceu todos os crimes desse homem.
Semelhante atitude Jesus teve com a pecadora que banhou os seus pés com perfume... Não faz nenhuma pergunta sobre seu escandaloso passado. Simplesmente diz: “Seus inúmeros pecados estão perdoados, porque muito amor demonstrou” (Lc 7,47).
A memória de Jesus não é igual à minha.

SEGUNDO DEFEITO: JESUS NÃO “SABE” MATEMÁTICA
Se Jesus tivesse se submetido a um exame de matemática, por certo teria sido reprovado. “Um pastor tinha 100 ovelhas. Uma se extravia. Ele, imediatamente, deixa as 99 no redil e vai em busca da desgarrada. Reencontra-a, coloca-a no ombro e volta feliz” (cf. Lc 15,4-7).
Para Jesus, uma pessoa tem o mesmo valor de noventa e nove e, talvez, até mais. Quem aceita tal procedimento? Sua misericórdia se estende de geração em geração.

TERCEIRO DEFEITO: JESUS DESCONHECE A LÓGICA
Uma mulher possuía 10 dracmas. Perdeu uma. Acende a lâmpada; varre a casa... procura até encontrá-la. Quando a encontra convida suas amigas para partilhar sua alegria pelo reencontro da dracma... (Lc 15,8-10)... de fato, não tem lógica fazer festa por uma dracma... O coração tem motivações que a razão desconhece... Jesus deu uma pista: “Eu vos digo que haverá mais alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte...” (Lc 15,10).

QUARTO DEFEITO: JESUS É AVENTUREIRO
Executivos, pessoas encarregadas do “marketing das empresas”, levam em suas pastas projetos, planos cuidadosamente elaborados... Em todas as instituições, organizações civis ou religiosas não faltam programas prioritários; objetivos, estratégias...
Nada semelhante acontece com Jesus. Humanamente analisando, seu projeto está destinado ao fracasso.
Aos apóstolos, que deixaram tudo para segui-lo, não garante sustento material, casa para morar, somente partilhar do seu estilo de vida. A um desejoso de unir-se aos seus, responde: “As raposas têm tocas e as aves do céu ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8,20).
Os doze confiaram neste aventureiro. Milhões e milhões de outros igualmente. Já vão lá mais de dois mil anos e a incalculável multidão de seguidores continua a peregrinar. Galerias enormes de santos e santas, bem-aventurados, heróis e heroínas da aventura. No Universo inteiro esta abençoada romaria continua... Vai que este aventureiro tem razão...? Neste caso, a mais fantástica viagem na “contramão” da história será a verdadeira...! “A quem iremos?”...

QUINTO DEFEITO: JESUS NÃO ENTENDE DE FINANÇAS NEM ECONOMIA
Se Jesus fosse o administrador da empresa, da comunidade, a falência seria uma questão de dias. Como entender um administrador que paga o mesmo salário a quem inicia o trabalho cedo e a outro que só trabalha uma hora? Um descuido? Jesus errou a conta? ...

Por que Jesus tem esses defeitos? Porque é o Deus da Misericórdia e Amor Encarnado. Deus Amor (cf. 1Jo 4,16). Portanto, não um amor racional, calculista, que condiciona, recorda ofensas recebidas. Mas um amor doação, serviço, misericórdia, perdão, compreensão, acolhida... Em que medida? Infinita.
Os defeitos de Jesus são o caminho da felicidade. Por isso, damos graças a Deus. Para alegria e esperança da humanidade, esses defeitos são incorrigíveis.


Vale a pena ler: Van Thuan, François. Testemunhas da esperança. São Paulo: Cidade Nova.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Costellazioni

Se le nostre anime fossero stelle
noi dovremmo fare una costellazione
se le nostre anime fossero foglie
noi dovremmo fare un albero d'estate.
Se le nostre anime fossero stelle
noi dovremmo fare una costellazione
se le nostre anime fossero foglie
noi dovremmo fare un albero d'estate
se le nostre anime fossero gabbiani
noi dovremmo migrare verso paesi lontani
come uno stormo che migra
migra verso il mare.
Queste mie mani
sono le tue mani
i miei pensieri
sono i tuoi pensieri
trasparenti come bolle di sapone
incontro al vento
siamo come gli aquiloni
che non vogliono atterrare.
Se le nostre anime fossero stelle
noi dovremmo fare una costellazione
se le nostre anime fossero foglie
noi dovremmo fare un albero d'estate.
Queste mie mani
sono le tue mani
i miei pensieri
sono i tuoi pensieri
colorati come il sole
che si specchia in un riflesso
siamo come una cordata
che cammina sul crinale.

Se le nostre anime fossero stelle
noi dovremmo fare una costellazione
se le nostre anime fossero foglie
noi dovremmo fare un albero d'estate
se le nostre anime fossero gabbiani
noi dovremmo migrare verso paesi lontani
come uno stormo che migra
migra verso il mare.
E stando soli ci si sente
su un ramo d'inverno bruciati dal freddo
e stando soli sembra di essere persi
su un'aspra montagna sospesi nel vuoto
e stando soli che cosa sei non lo sai più.
... Come uno stormo che migra
migra verso il mare, il mare.
Se le nostre anime fossero stelle
noi dovremmo fare una costellazione
se le nostre anime fossero foglie
noi dovremmo fare un albero d'estate
se le nostre anime fossero gocce
noi dovremmo fare una pioggia di suoni
se le nostre anime fossero fuochi
noi dovremmo fare una traccia nella notte
se le nostre anime fossero coralli
noi dovremmo fare un'immensa barriera
se le nostre anime fossero neve
noi dovremmo fare un mantello sulle case.




Se vuoi sentirla: http://www.youtube.com/watch?v=RMp0vzE2bBw

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Blaise Pascal

       “O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (Cat, 27).
A vida de Blaise Pascal foi uma confirmação literal dessas palavras que se encontram no Catecismo da Igreja Católica. Em sua vida, ele soube unir o amor pela verdade e a busca de Deus, dando testemunho de que é possível conjugar com equilíbrio e profundidade: fé e razão, piedade e ciência, amor e sensatez.
Num mundo onde o desequilíbrio do pecado se manifesta em todas as áreas da vida do homem: desmatamento ecológico, guerras, corrupção na política, desmoralização dos poderes públicos, intolerância religiosa, violência em diversos graus e formas... o testemunho de vida de Pascal parece oportuno para nos lembrar que o homem, que trás em seu coração o desejo de chegar à Verdade, pode e deve contar com o que João Paulo II chamava de “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação” da verdade que tanto ele busca. Essas duas asas são a fé e a razão.
Nascido em Clermont a 19 de junho de 1623, filho de um alto magistrado, homem de vasta cultura, chamado Etienne Pascal e de Antoinette Bégon, desde tenra idade deu mostras de uma extraordinária inteligência e de uma aguçada curiosidade.
Aos sete anos, após a morte de sua mãe, foi morar com seu pai e irmãos em Paris. Dedicado que era aos estudos científicos, matemáticos e físicos, seu pai preferiu que ele se dedicasse ao latim, antes de estudar as ciências e a matemática, matérias pelas quais, a exemplo do pai, nutria maior interesse. Entretanto, Pascal dedicava boa parte de seu tempo livre a estudar as disciplinas “proibidas” por seu pai, principalmente a geometria, revelando-se assim um excelente e precoce autodidata.
Com apenas doze anos, Pascal descobriu sozinho as 32 primeiras proposições da Geometria de Euclides. Quando seu pai descobriu o prodígio de seu filho deixou que ele pudesse livremente dedicar-se aos estudos que mais lhe interessavam, de modo a não sufocar sua grande virtude e inteligência.
Quatro anos mais tarde, Pascal, com a idade de dezesseis anos, escreveu um Tratado sobre as Seções Cônicas. Vejamos como sua irmã, a senhora Périer, narra esse período na biografia que escreveu sobre a vida do irmão: “Como [Pascal] encontrava naquela ciência a verdade, que tão ardorosamente procurava, sentia-se tão satisfeito que nela punha todo o seu espírito, e assim progredia tão rapidamente que com a idade de dezesseis anos escreveu um tratado de cones, o qual foi considerado a tal ponto excelente que afirmavam nada ter havido igual desde Arquimedes”.
Nunca tendo freqüentado um colégio, Pascal tinha como preceptor o próprio pai, com quem estudou lógica, filosofia, física. Aos dezoito anos inventou uma máquina de calcular para ajudar seu pai a efetivar cálculos (em 1650, Pascal ofereceu essa máquina à rainha da Suécia), por volta dessa época começou a sofrer mal-estares freqüentes, que o faziam sofrer muito e iam fragilizando pouco a pouco a sua saúde.
Mais tarde, por volta dos vinte e dois anos, Pascal conseguiu demonstrar e confirmar as descobertas de Torricelli a respeito da pressão atmosférica.
Em todo esse itinerário, buscava a verdade e a felicidade, mas apesar de todas as vitórias e êxitos no campo da ciência, e de tudo de bom que esta oferecia, Pascal ainda não havia encontrado o que tanto procurava...
Depois da morte de seu pai, Pascal se distanciou da vida religiosa tradicional e enveredou por um caminho de distanciamento de Deus, até que na noite de 23 de novembro de 1654 teve uma forte experiência mística com Deus. A verdade que ele tanto procurara veio ao seu encontro. Recordando essa experiência, Pascal escreveu depois de algum tempo um memorial: “...Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu me afastei dele, evitei-o, reneguei-o, crucifiquei-o. Que eu jamais me separe dele (...) Renúncia total e doce (...) Submissão total a Jesus Cristo (...) Alegria eterna por um dia de provação na terra. Não me esquecerei de suas palavras. Amém”.
Após sua conversão, Pascal dedicou-se, com o mesmo ardor que antes dedicara à Ciência, à vida espiritual. Dedicou a partir de então a sua extraordinária inteligência aos estudos das Sagradas Escrituras e da moral cristã.
Apesar de todas as possibilidades que teria dedicando-se ao trabalho no âmbito das ciências matemáticas e físicas, Pascal decidiu-se por viver uma vida de recolhimento, oração e penitência, com o intuito de aproximar-se cada vez mais daquele por quem seu coração anelava.
Pondo-se a serviço de Cristo, Pascal entendeu por criticar na época a René Descartes que, segundo ele, exagerava na importância que atribuía à Ciência, ao mesmo tempo que dava pouco espaço para Deus em sua concepção filosófica racionalista.
Pretendeu mostrar que a religião cristã oferecia tantas marcas de certeza quanto as coisas aceitas no mundo como inquestionáveis ou indubitáveis. Com clareza expunha os diversos assuntos com maestria e lógica raras.
Levava uma vida pobre, humilde, austera e de prática das virtudes. Passou os últimos quatro anos de sua vida seriamente doente, acamado e sofrendo continuamente. Apesar disso, mantinha-se cordial, alegre, paciente, caridoso e ao mesmo tempo profundo em suas contínuas reflexões.
Entretanto, como todo homem sujeito a falhas, Pascal em sua boa intenção de viver e apregoar a radicalidade do Evangelho, acabou se deixando envolver pela doutrina jansenista, que mais tarde seria condenada pela Igreja como sendo herética. Mas, é bom salientar que quando o jansenismo foi definitivamente condenado pela Igreja, Pascal imediatamente parou de pronunciar-se em favor das idéias desse movimento.
Um dia antes de sua morte, solicitou a extrema-unção e o viático. O sacerdote que veio lhe trazer o sacramento final, ao entrar no seu quarto disse: “Eis Aquele que tanto desejaste”; depois de ser interpelado acerca dos principais mistérios da fé, Pascal respondeu: “Sim, Senhor, creio nisso tudo de todo o coração”, logo após recebeu o viático e chorou emocionado. Suas últimas palavras foram uma verdadeira confissão de fé, daquele que soubera fazer tão bom uso de sua razão: “Que Deus não me abandone jamais”.
Entre seus pensamentos que se tornaram imortais encontra-se um que expressa de modo inequívoco o perfil desse homem que soube elevar-se até a Verdade pelas asas da razão e da fé: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.
Que o exemplo de Pascal nos leve a refletir e a considerar a importância e a complementaridade destes dois grandes dons que Deus nos deu: A fé e a razão, a razão e a fé...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Preghiera di Charles de Foucauld

Padre mio, mi abbandono a Te,
di me fai quello che Ti piace,
grazie di ciò che fai per me,
spero solamente in Te.
Purchè si compia il tuo volere
In me e in tutti i miei fratelli,
niente desidero di più
fare quello che vuoi Tu.

Dammi che Ti riconosca,
dammi che Ti possa amare sempre più,
dammi che Ti resti accanto,
dammi d’essere l’Amor.

Fra le tue mani depongo la mia anima
Con tutto l’amore del mio cuore,
mio Dio la dono a te,
perché Ti amo immensamente.
Si, ho bisogno di donarmi a te,
senza misura affidarmi alle tue mani,
perché sei il Padre mio,
perché sei il Padre mio.


Cantata da Gen Rosso

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Charles Péguy, um poeta visitado pela graça

Péguy nasceu em 1873, na França. Filho de um pai "formalmente, oficialmente não crente", aluno de professores que tratavam a Igreja Católica como um resíduo decrépito do Ancien Régime, paroquiano de uma paróquia "pouco freqüentada, onde a classe operária, o povo, não é atingido, e onde aos domingos, exceto em algumas solenidades, a igreja fica deserta", aos 17 anos ele diz ter arquivado o cristianismo. E, aos 27 anos, escreve: "Todos os meus colegas se desembaraçaram, como eu, do cristianismo. (...) Os 13 ou 14 séculos de cristianismo entregues aos meus antepassados, os 11 ou 12 anos de instrução religiosa recebida sincera e fielmente passaram por mim sem deixar rastros".
Em 1897, contrai casamento civil com Charlotte Baudouin, pertencente a um clã familiar revolucionário, num clima de socialismo místico. Três anos depois, funda a revista Cahiers de la Quinzaine, que se torna logo um cenáculo de livres pensadores, agnósticos e judeus revolucionários. Oito anos depois, confidencia a um amigo: "Não lhe disse tudo... reencontrei a fé, sou católico". Posteriormente, escreverá em uma de suas obras: "A graça toca os corações quando menos se espera... É a própria fórmula da mordida, é a fórmula do ataque, do golpe, da penetração da graça. Mas essa fórmula implica também que aquele que se põe a pensar, que tem o hábito de pensar, que está recoberto da camada desse hábito é também aquele que se expõe menos e que, por assim dizer, tem menor possibilidade de ser pego". Isso aconteceu a Péguy entre 1907/08, quando tem cerca de 35 anos e já é pai de três filhos.
Esse reencontro de Péguy com a Boa nova, fá-lo profundamente encantado das coisas novas e sedento de novidades. Em um de seus poemas, o "Mistério da caridade de Joana d’Arc", a donzela de Orléans pede uma graça nova: "Há algo errado. Existem santos. Existe a santidade, mas nunca o reino da esfera da perdição dominou tanto sobre a face da terra. Talvez fosse preciso outra coisa, meu Deus, tu sabes tudo. Sabes o que nos falta. Talvez fosse preciso algo novo, algo nunca antes visto. Algo que nunca antes tivesse sido feito".
E leva-o a dizer coisas belas sobre as virtudes teologais: "A fé é uma igreja, é uma catedral enraizada no solo da França. A caridade é um hospital, um sanatório que recolhe todas as misérias do mundo. Mas sem esperança, tudo isso nada mais seria que um cemitério". Esperança tem de que cada pessoa, diante do Ressuscitado, experimente aquele mesmo fascínio que Pedro, Tiago, André, João...

Aos pés da Virgem
A vida de Péguy, depois de 1908, segue repleta de sofrimentos. São tribulações, como a saúde delicada do filho caçula; dificuldades econômicas que tem de enfrentar para continuar a publicar os Cahiers; o relacionamento com a esposa que, ateia, julga que o marido esteja sofrendo de uma "crise aguda de catolicismo" e, recusando-se a casar-se na igreja e a batizar os filhos, priva o esposo dos sacramentos; dificuldades com os amigos católicos, que tentam persuadi-lo a "obrigar" a esposa a casar-se na Igreja ou a abandoná-la. Mas Péguy, de alma magnânima, entende o que é a liberdade que Deus deu a cada um de seus filhos e, portanto, não pretende usurpar a liberdade de sua esposa e, acima de tudo, confia na misericórdia de Deus.
Em meio a todo seu sofrimento, ele consola-se e pede o auxílio da Virgem, Mãe de Jesus e sua. Ele mesmo escreveu a um amigo em 1912: "Faço parte daquele grupo de católicos que trocariam Santo Tomás inteiro pelo Stabat, pelo Magnificat, a Ave-maria e a Salve Rainha". E em outro lugar: "No mecanismo da salvação, a Ave-maria é o extremo socorro. Com ela não podemos nos perder".
Vai a Chartres, em peregrinação, para diante dos pés da Virgem pedir e agradecer por graças concretas. No trecho de uma carta escrita a um amigo é possível perceber a confiança que nutria pela Virgem e o espírito com o qual se dirigia ao santuário: "Dá para ver o campanário de Chartres a 17 quilômetros na planície. De quando em quando desaparecia dentro de uma ondulação, uma linha de bosques. Tão logo o vi, prossegui em êxtase. Todas as minhas impurezas desapareceram de um golpe. Eu era um outro homem. Rezei durante uma hora na catedral, no sábado à noite; rezei durante uma hora no domingo de manhã, antes da missa solene. Mas não acompanhei a celebração: tinha medo da multidão. Rezei, meu amigo, como nunca antes daquele momento".
De volta ao lar, Charles Péguy encontra os mesmos problemas, mas tudo parece diferente, a Virgem semeia graças abundantes em todos os aspectos de sua vida: sobre os Cahiers; sobre o filho, que melhora e tem finalmente diagnóstico e medicamentos acertados; sobre a senhora Péguy, cujo espírito passa por um movimento misterioso, chegou até a confessar que se o menino não tivesse melhorado chamaria o padre para batizá-lo; também sobre a inspiração poética, escreve vários poemas dedicados a Maria e como recordações das graças da peregrinação. Charles escreve a um amigo: "... eis-me novamente devedor para com Nossa Senhora de Chartres. Acho que irei todos os anos"; "Vivo sem sacramentos. É uma louca empresa. Mas gozo do dom da graça, de uma superabundância de graça inconcebível. Obedeço às indicações".
De fato, em 1913, novamente Péguy vai em peregrinação a Chartres. Na volta, escreve a um amigo: "Quase morri. Fazia um calor enorme! Eu havia percorrido 40 quilômetros. Seria bonito morrer ao longo de uma estrada e ir para o céu num instante".
Em 1914, vai novamente a Chartres. No entanto, dessa vez de trem, não mais a pé. E escreve: "Foi lá que deixei o meu coração e creio realmente que lá me farei sepultar, já que ali recebi graças extraordinárias".

O Paraíso
Depois, começa a Primeira Guerra Mundial e Péguy parte para o fronte. Antes, porém, dirige uma exigência testamentária a três mulheres: a esposa Charlotte (atéia) e as amigas Jeanne Maritain (católica) e Blanche Raphaël (judia). Pede a elas que vão por ele a Chartres, todos os anos, se ele morrer na guerra. Um pedido incomum, dirigido a uma esposa não batizada e a uma amiga judia incrédula. Do fronte, escreve uma carta pedindo que em Chartres rezem três orações: Pai-nosso, Ave-maria e Salve Rainha.
Em 15 de agosto de 1914 o subtenente do exército, Péguy, assiste à missa da Assunção em Loupmont, pequena paróquia da região da Lorena. Três semanas depois, em 5 de setembro, aos 41 anos, parte para o paraíso. É morto no comando de um batalhão, próximo a Villeroy.
Suas preces expressas durante tantos anos em silêncio e sem forçar as circunstâncias serão respondidas após sua morte: a esposa Charlotte irá todos os anos em peregrinação a Chartres, levando consigo as crianças, e o fará durante meio século. Entre 1925 e 1926, ela e três dos quatro filhos – o último nasceu depois da morte do pai – receberão o batismo na Igreja Católica. O primogênito o receberá em uma comunidade cristã, mas não católica.

domingo, 16 de janeiro de 2011

De malas cheias

Devemos viver bem cada momento de nossa vida! Muitas vezes, ao ouvir – ou dizer – esta frase, imaginamos que “viver bem” é levar a vida sem compromissos, “curtindo na boa”, fazendo tudo o que “dá na telha”. Porém, não é bem assim; ao contrário, é ter a consciência de que só temos uma vida à nossa disposição, por isso não podemos nos aventurar em gastá-la de qualquer maneira, irresponsavelmente. É preciso realizar bem nossas tarefas, desempenhá-las da melhor forma que nos é possível.
Nós, jovens, porque sabemos ter “a vida pela frente”, nem sempre aproveitamos bem o momento presente da nossa vida. Muitas vezes adiamos o que devemos fazer agora. É claro isso quando olhamos para nossa vida estudantil: a maioria de nós deixa para “estudar” na véspera da prova. Até vamos ao colégio – ou à Universidade – todos os dias, mas não lemos nossos textos, não compramos nem alugamos livros para aprofundar o conteúdo visto em sala; fugimos das conversas com professores ou pessoas mais maduras e mais experientes. Adiamos o quanto podemos os cursos de computação, língua estrangeira, música etc. E isso é muito sério! Vivendo assim, não estamos cumprindo a vontade de Deus para nós, e chegaremos à vida adulta de malas vazias.
Outro dia, conversando com uma amiga, ela dizia o quanto se arrependia por não ter se dedicado como devia aos estudos, por ter feito estudos rasos, contentado-se com pouco na Universidade; essa pouca dedicação hoje lhe rendia muitas vezes uma atuação profissional medíocre. Essa conversa mexeu muito comigo, pois acredito que devemos dar testemunho de cristianismo também na vida profissional, sendo capazes e bem preparados.
Na juventude, compete-nos estudar – esta é a vontade de Deus a nosso respeito! – encher as malas a fim de chegar à vida adulta preparados, capazes de dar nosso contributo para o desenvolvimento da humanidade e progresso do mundo. Muitas vezes, quando os pais nos cobram a quantas anda nossa vida estudantil, nos chateamos e ignoramos a cobrança. Entretanto, devemos refletir sobre isso.
Como você se sentiria, por exemplo, se fosse a um consultório médico e não sentisse segurança naquele profissional? Confiaria sua saúde a ele? Ou quando começa um curso e percebe que o professor não está bem preparado? O você faz? Assim é com todos os profissionais: quando procuramos os serviços de algum, queremos o melhor; queremos sentir que ele sabe o que faz e assim podermos nos confiar a ele. Penso nisso sempre que vou ao consultório de minha dentista – há algum tempo faço um tratamento ortodôntico e uma vez por mês vou “visitá-la”. Converso com ela sobre o tratamento, pergunto e ela sempre sabe o que está fazendo; isso me faz confiar inteiramente nela. E como é bom estar nas mãos de um profissional desse gabarito! Em contrapartida, quando vou a um consultório e percebo o profissional inseguro não volto mais lá.
Com certeza, os bons profissionais investiram em suas vidas desde cedo, levando a sério os estudos, lendo, pesquisando, conversando com outras pessoas, viajando.
A maioria de nós, infelizmente, acha que estudar é chato. E nos falta versatilidade para nos dedicar a muitas coisas: aí, só escuto música, ou só rezo, ou só namoro, ou só estudo. Porém, em nossa vida deve haver espaço para cultivar a espiritualidade, o lazer, os estudos.
Devemos também aprender a romper com os estigmas que são criados entre nossos próprios colegas. Por exemplo, se chegamos na sala de aula com um livro de poesia, nossos colegas dizem logo: “Tu vais ler isso? Isso é muito chato?”. Quando nos vêem com um livro de literatura: “Cara, tu é doido mesmo”. Leitura, só as que são obrigadas. Entretanto, devemos saber encontrar prazer naquilo que nos enriquece intelectual e humanamente e, em tudo o que fazemos, devemos nos preparar para o futuro. Isto é, viver bem o presente! E aprender a pensar, a olhar além das aparências e daquilo que está óbvio. Se vivemos bem o presente, construímos bem o futuro.
Disse há pouco que estudar é a vontade de Deus para nós. Todavia, seu maior desígnio ao nosso respeito é o amor: fomos criados por amor e para amar. Estudar é também um ato de amor a Deus e à humanidade. Devemos ter sempre diante de nós o sentido do nosso estudo: É para ganhar muito dinheiro? É para saber mais que os outros? É para tirar notas boas? É para passar de ano? Ou é para dar um contributo à construção de um mundo mais humano, mais justo, mais cristão?
Com certeza, Deus aposta muito em nós e espera que correspondamos a altura. Portanto, devemos ter sempre como meta e mola propulsora do nosso estudo o amor. Marisa, uma das primeiras focolarinas, falando sobre os estudos às jovens do Movimento dos Focolares, disse: “Se permanecerem na caridade, o que acontecerá? Algumas das idéias que preencheram a mente de vocês durante o estudo, cairão; permanecerão as mais válidas. Não só, o amor que vocês continuarão a viver, organizará as idéias dentro de vocês. Talvez vocês nem percebam isso”.
A sociedade em que vivemos, que supervaloriza o ter em detrimento do ser, nos faz viver como vegetais, que não pensam, não sentem, não sabem o que querem, não sabem por que vivem: a mídia que dê o “ponto de vista” para eu absorver; a propaganda que me diga o que devo comprar; o marketing que me diga quais são as minhas necessidades e por aí vai. Acostumados que somos a não pensar, concordamos com tudo o que lemos, não refletimos diante de um filme que assistimos, apenas absorvemos o que nos é apresentado.
Eu, particularmente, criei o hábito de fazer um resumo de todos os livros que leio, resumindo a história e dando meu ponto de vista a respeito. Posso afirmar que, além de me fazer entender melhor o que o autor diz e me ajudar a me posicionar diante disso, é também um exercício muito gostoso! Também tenho o hábito de “colher” uma mensagem dos filmes que assisto, analisar o que eles me ensinam. Outro dia, saindo do cinema com uns amigos, comecei a conversar sobre o que havíamos visto, de repente alguém disse: “Por que falar sobre isso? Filme se assiste e pronto”. Será?
A juventude é o preciosíssimo tempo que temos para, como disse antes, encher nossas malas. Portanto, devemos aproveitar bem os estudos, cursos, amizades, lazeres e tudo mais para crescer como gente. Isso, porém, não consiste em ficar “neurótico” pelos estudos, ou colocá-los no lugar de Deus, como centro da nossa existência. Mas é preciso “dar a Deus e o que é de Deus e a César o que é de César”, ou seja, colocar as coisas no seu devido lugar, sem super nem subestimá-las. Afinal, os estudos são um meio importantíssimo, mas nunca um fim em si mesmo. Se, de fato, acreditarmos nisso e vivermos dessa forma, teremos mais facilidade em nos posicionar diante do mundo – sem nos deixar engolir por ele; fazer escolhas, ser independentes e amar de forma livre e verdadeira.

A Igreja vive da Eucaristia

“A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência cotidiana de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta de múltiplas formas a contínua realização desta promessa: ‘Eu estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo’ (Mt 28,20)”. (Ecclesia de eucharistia, 1)
É sempre bom lembrar as origens da Eucaristia: estando prestes a entregar-se para a salvação de toda a humanidade – todas as pessoas, de todos os tempos, de todos os lugares – Jesus, ceando com os seus amigos, oferece-lhes o seu próprio corpo e o seu próprio sangue, dizendo-lhes que repitam essa “fração do pão” em sua memória.
O Papa João Paulo II, na Carta Encíclica Ecclesia de eucharistia, de abril de 2003, afirma que a Eucaristia nasceu numa circunstância dramática. Com efeito, “é o sacrifício da cruz que se perpetua nos séculos” (EE, 11). “Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do gênero humano que Jesus Cristo realizou-o e retornou ao Pai somente depois de ter nos deixado o meio para dele participarmos, como se nele tivéssemos estado presentes” (idem). É o que a Igreja nos ensina há séculos: na Eucaristia, Jesus revela um amor sem medida, uma delicadeza profunda: parte permanecendo!
“Muitos são os problemas que obscurecem o horizonte do nosso tempo. Basta pensar na urgência de trabalhar pela paz, de colocar nos relacionamentos entre os povos sólidas promessas de justiça e de solidariedade, de defender a vida humana da concepção ao seu fim natural. E o que dizer das mil contradições de um mundo ‘globalizado’, onde os mais frágeis, os menores e os mais pobres parecem ter bem pouco a esperar? Também por isso o Senhor quis permanecer conosco na Eucaristia, inscrevendo nesta sua presença sacrifical a promessa de uma humanidade renovada pelo seu amor” (EE, 20).
Seguindo a exigência de Jesus: “Fazei isto em memória de mim” (Lc 22,19), todos os dias a Igreja torna atual o sacrifício pascal – paixão, morte e ressurreição de Cristo –, pois, “unindo-se a Cristo, o povo da nova aliança, longe de fechar-se em si mesmo, torna-se ‘sacramento’ para a humanidade, sinal e instrumento da salvação operada por Cristo, luz do mundo e sal da terra (cf. Mt 5,13-16)” (EE, 22). E o Papa acrescenta: “Na comunhão eucarística se realiza de modo sublime a “morada” recíproca de Cristo e do discípulo: ‘Permanecei em mim e eu em vós’ (Jo 15,4)” (idem). Assim, “a Igreja vive de Cristo eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada” (EE, 6).
A Eucaristia em todo lugar
O Papa pensa com amor também no caráter universal e, por que não dizer, cósmico da Santa Eucaristia: “Ela une o céu e a terra. Compreende e pervade toda a criação. O Filho de Deus se fez homem para restituir toda a criação, em um supremo ato de louvor, àquele que a fez do nada” (EE, 8). E mais, onde quer que seja celebrada a Eucaristia – junto às colinas, à beira da praia, nas margens do rio, nas capelas campestres, nas catedrais, nas praças ou ginásios... – é sempre o mesmo Cristo que é imolado “sobre o altar do mundo”, unindo o céu e a terra, o tempo e o espaço.
João Paulo II faz um lamento: “Infelizmente... não faltam as sombras. De fato, existem lugares onde se registra um completo abandono do culto de adoração eucarística... Emerge, às vezes, uma compreensão reduzida do mistério eucarístico. Espoliado do seu valor sacrifical, vem vivido como se não ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro de convivência fraterna... Como não manifestar, por tudo isso, uma profunda dor? A Eucaristia é um dom muito grande, para suportar ambigüidade e diminuições” (EE, 10).
Eucaristia x Maria
Para finalizar, o Papa lança um pensamento sobre Maria: “Se queremos descobrir em toda a sua riqueza o relacionamento íntimo que liga a Igreja e a Eucaristia, não podemos esquecer Maria, mãe e modelo da Igreja” (EE, 53).
Em certo sentido, “Maria exerceu a sua fé eucarística ainda antes que a Eucaristia fosse instituída, pelo fato de ter ofertado o seu seio virginal para a encarnação do Verbo de Deus. A Eucaristia, enquanto remete à paixão e à ressurreição, se põe ao mesmo tempo em continuidade com a encarnação. (...) Como imaginar os sentimentos de Maria ao escutar da boca de Pedro, de João, de Tiago e dos outros apóstolos as palavras da última ceia: ‘Este é o meu corpo que é dado por vós’ (Lc 22,19)? Aquele corpo dado em sacrifício e representado nos sinais sacramentais era o mesmo corpo concebido no seu ventre! Receber a Eucaristia devia significar para Maria quase um reacolher no ventre aquele coração que havia batido em uníssono com o seu e um reviver aquilo que havia experimentado em primeira pessoa sob a Cruz. (...) Na Eucaristia, a Igreja se une plenamente a Cristo e ao seu sacrifício, fazendo seu o espírito de Maria” (EE, 56,57,58).

A negação da infância

Recorrendo ao dicionário Aurélio, encontramos a seguinte definição para o verbete infância: “Período de vida que vai do nascimento à adolescência, extremamente dinâmico e rico, no qual o crescimento se faz, concomitantemente, em todos os domínios, e que, segundo os caracteres anatômicos, fisiológicos e psíquicos, se divide em três estágios: primeira infância, de zero a três anos; segunda infância, de três a sete anos; e terceira infância, de sete anos até a puberdade”.
É uma definição boa, sem dúvida, mas convém esclarecer que os significados da infância são construídos socialmente; são, portanto, atrelados a determinações culturais, sociais e históricas, para além do aspecto biológico.
No decorrer da história, percebemos as mudanças por que passou esse conceito. Na idade antiga, por exemplo, não havia o amor e o cuidado para com os pequeninos como hoje. Descartar a criança era algo normal. Se os bebês apresentavam alguma deficiência, era muito comum serem assassinados ou abandonados para que morressem sem cuidados. O pouco ou nenhum afeto estendia-se também aos filhos ditos normais. Os índices de natalidade eram altos e também alto era o índice de mortalidade. Dessa forma, até como um modo de se proteger do sofrimento da separação causada pela morte, os pais deixavam para ter afeto pelos filhos apenas se eles “vingassem”. Com o advento do cristianismo, os valores foram reordenados e os vínculos humanos tomaram outra dimensão. Agora, os filhos significavam seres criados por Deus para o amor, era preciso proteger sua vida.
Na idade média, as crianças eram vistas como adultos em miniatura – se contemplarmos os quadros dos pintores da época observaremos nas roupas, nos traços, nas posturas das crianças esse aspecto.
É na idade moderna que acontece uma grande valorização da infância. Os filhos são desejados, os pais querem procriar para amar e serem amados pelos filhos. A sociedade começa a amar, considerar e proteger as crianças.
Nessa caminhada história, inúmeras pesquisas sobre a infância foram desenvolvidas, em várias áreas: pedagogia, psicologia, biologia, antropologia, sociologia. Isso contribuiu para que pais e educadores pudessem entender o potencial infantil e estimular seu desenvolvimento de maneira adequada. Graças a esses estudos, o conceito de infância foi profundamente alterado. Ora, se antes as crianças eram vistas apenas como promessa do ser adulto – ou seja, vistas do ponto da imaturidade, do inacabamento, da imperfeição etc. – agora são vistas como seres que estão em desenvolvimento, sim, mas que seu presente já é importante; é desempenhando bem o que podem hoje que construirão, paulatinamente, a maturidade, a autonomia. Já são capazes hoje e não só quando crescerem.

A infância no Brasil
Falando da nossa realidade brasileira, não apenas no decorrer dos séculos, mas em cada década nós já vemos as mudanças na forma de conceber a infância. Por exemplo, nos inícios do século XX as crianças eram educadas ao silêncio, à obediência, a cumprirem regras, terem tarefas a desempenhar – ajudar a mãe nas tarefas domésticas, trabalhar na lavoura, etc. O olhar dos pais era suficiente para entenderem o que poderiam ou não fazer ou querer.
Especificamente após uma vivência de radicalismo político, de submissão à ditadura, seguiu-se um período de permissivismo do qual experimentamos os ranços até hoje. As crianças tomaram o centro da vida familiar e, muitas vezes, dominavam os pais, tomavam decisões importantes e prematuras (já ouvi mães de alunos meus dizerem que seus filhos estão faltando muito às aulas porque decidiram não ir mais à escola – isso aos 7 anos de idade; cedo demais para uma decisão tão importante!).
E os pequenos ditadores espalham-se nas festas, nas praças, nos supermercados, nas lojas... Certamente, você já viu um menininho esperneando e berrando com a mãe no supermercado para levar um brinquedo e a mãe reagindo de maneira subjugada, obedecendo ao comando grosseiro do filho.
De um momento de descoberta da particularidade e potencialidade infantil – pois a criança vê o mundo com seus próprios mecanismos e é capaz de criar, inventar, empreender, cooperar e ser livre, segundo o grande educador Celestin Freintet – a sociedade passou a sofrer sob a tirania infantil. Não é à toa que hoje se fala tanto em limite na educação das crianças. Atualmente é grande o movimento de recuperar e permitir às crianças a vivência de um momento tão fundamental no seu desenvolvimento. Permitir que os pequenos sejam, de fato, crianças, sem terem de se preocupar com a aparência, com namoro, com decisões “importantes”, com o consumo, com coisas de gente grande.
Porém, em meio a essa busca de não mais negar nem deixar que as crianças neguem a infância, outra ameaça se apresenta. Com o desenvolvimento das novas tecnologias da comunicação e da informação, há quem diga que surge um novo paradigma infantil: as crianças estão em pé de igualdade com os adultos. É certo que as crianças têm mais facilidade de manusear o computador porque sua curiosidade e ousadia as ajudam nessa tarefa, sem contar que já nascem praticamente olhando para esses aparelhos eletrônicos, enquanto que para muitos adultos ainda são “seres estranhos”. O fato de não terem medo das máquinas ajuda os pequenos a terem tão bom desempenho no seu uso.
Mas daí a derrubar as hierarquias e colocar as crianças em pé de igualdade com os adultos, a meu ver, é um grande equívoco. Talvez esse absurdo contribuiria a formar muitos “Peter Pan” – lembram-se do menino que não queria crescer? –, crianças que não se sentem motivadas a crescer, pois já estão “prontas”, iguais aos adultos. E nós já vemos crianças que não são bem orientadas a esse respeito, como são arrogantes diante dos pais e perdem com eles a paciência porque não sabem digitar ou mandar um e-mail, por exemplo.

Infância saudável
Convém abordar ainda o aspecto mercantil, que também ajuda a negar ou, no mínimo, a encurtar a infância. Os apelos comerciais fazem com que mais rapidamente as meninas precisem de salto alto, de maquiagem, de roupas “transadas”, de celular. O complicado disso tudo é que a brincadeira, tão importante para o desenvolvimento saudável do ser humano – segundo Freud, a criança que não brinca adoece emocionalmente – fica esquecida.
Além do aspecto emocional, pois na brincadeira a criança organiza suas crises, vence seus medos, derrota os “dragões” e elabora papéis, tem também o aspecto físico. Hoje, pesquisas e mais pesquisas revelam, preocupadas, o crescimento da obesidade infantil. Porque não correm, não sobem em árvores, não pulam, mas apenas deitam-se diante da TV ou sentam-se na frente do computador demasiadamente, ficam prejudicadas fisicamente.
Portanto, é preciso que pais e educadores se empenhem no resgate da infância e propiciem aos pequeninos com quem convivem uma meninice saudável. Se a infância não for negada, certamente a vida adulta será mais ordenada e vivida melhor.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A alegria e o humor dos cristãos

“Alegrai-vos sempre no Senhor; repito, alegrai-vos!” Esta ordem que São Paulo deixou como legado à Igreja, algumas vezes é esquecida. Não raramente, as pessoas pensam ser a alegria incompatível com a vida entregue a Deus; criam na sua fantasia um protótipo de cristão que não condiz com a realidade: extremamente sério, até mesmo carrancudo, fechado, que nunca brinca nem ri jamais.
Entretanto – não apenas a alegria! –, humor e fé não são incompatíveis! Rir é próprio do homem – alguém já viu um cachorro rir? Filosoficamente, podemos concluir: se o homem é imagem de Deus, logo o riso também é um “atributo” divino. Por isso, o humor é uma coisa séria demais para ser confiada aos piadistas ou “desfrutado” apenas pelos não-crentes.
A alegria é necessária ao cristão! Jesus mesmo disse: “Que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). E por muitas vezes o tema da alegria é retomado nas Escrituras!
A história da Igreja também é cheia de exemplos e de ensinamentos acerca da alegria. Olhando a vida dos santos, em praticamente todos eles encontramos momentos hilários ou palavras dirigidas acerca da alegria. Citando apenas um, São João Clímaco diz: “Deus não pede nem deseja que o homem se aflija; prefere que ele se rejubile e ria por causa do amor que Deus prova por ele”.
Podemos daí concluir que Deus tem senso de humor. Quando convivemos com uma pessoa, acabamos de uma forma ou de outra assimilando características suas. Quanto mais rezamos, mais vemos a vida de forma bela e engraçada, logo, é possível afirmar que é assim que Deus a vê, apesar de tudo!
Humor, o que é?
O Dicionário Larousse dá uma boa definição do humor: “Forma de espírito que se ocupa a denunciar sem acusar e com aparente impassividade os aspectos engraçados, insólitos ou absurdos da realidade que parece a mais normal possível”.
O humor, na verdade, é aquele refinamento que torna o homem mais agradável aos seus semelhantes e é uma excelente prevenção contra a angústia. Diante de uma situação difícil, temos duas opções: nos distanciar um pouco e rir, ou ficar presa a ela e nos angustiar. Há coisas bem sérias que devem ser tratadas como tais, mas muitas das que damos essa classificação não a merecem se as olhamos do alto.
A alma humana é imensa, por isso é tão fácil ao homem se enrolar nos problemas, por não conhecê-la tanto. O humor é um remédio contra isso, dá leveza à vida e faz apreciar as coisas de forma mais colorida; ajuda-nos a tomar certa distância dos problemas: de longe, as colinas não têm mais aparência de montanhas, então compreendemos o que verdadeiramente tem importância e o que não tem.
O humor é diferente da ironia, que ridiculariza e zomba; ao contrário, combina com a indulgência e a benevolência. É preciso pedi-lo a Deus e aprender a exercê-lo, antes de qualquer coisa, a respeito de si mesmo. O humor dá clareza ao olhar, o senso real da vida, coloca as coisas em seu devido lugar.
Na vida espiritual, o humor diante das coisas de Deus é um ponto considerável. Quantas vezes arquitetamos projetos que vêm desarranjados pela liberdade amorosa de Deus! O que fazer? Angustiar-se, perder a confiança e não ir adiante, ou, pelo contrário, aceitar e apreciar o cômico da situação, ter senso de humor e permitir que as coisas se tornam leves.
Certa vez alguém disse: “Você quer fazer o bom Deus rir? Fale a Ele dos seus projetos”. Se se pede a Deus o senso de humor, Ele vai dar, e cada um o recebe na sua própria maneira e na sua própria medida.
Alguns casos para rir
Conto agora algumas histórias que mostram o quanto é gostoso apreciar a vida com humor.
Winston Churchill assistiu à inauguração de sua própria estátua. “Que impressão você teve?”, perguntou um amigo. “Só posso dizer uma coisa – respondeu ele –, a partir de agora, vou olhar os pombos de um outro ângulo”.
O Papa Leão XIII festejava seu 90º aniversário. Passava pela multidão todo paramentado. As senhoras piedosas de Roma gritaram: “Possa o senhor viver cem anos, Santo Padre”. O Papa, que já tinha 90, responde de improviso: “Minhas filhas, por que limitar as bondades da Providência divina?”
Uma irmã consagrada no Movimento dos Focolares subiu ao palco para dar seu testemunho. Na tentativa de puxar o microfone para mais perto de si, encontrou-se com o pedestal quebrado nas mãos; então, com bastante senso de humor, olhou para o público e disse: “Inaugurei bem!” Todos começaram a rir, inclusive ela; consertou-se o pedestal e ela iniciou sua fala.
O humor na vida dos santos
Como foi dito antes, é muito comum encontrar na vida dos santos episódios engraçados, que revelam sua forma pitoresca e bem humorada de ver o mundo. Aqui, elencamos alguns.
Santo Tomás de Aquino
Um dia, um irmão chamou Tomás de Aquino: “Venha rápido à janela, irmão Tomás, um elefante voa! Tomás correu à janela e todos riram de sua ingenuidade. Santo Tomás respondeu: “Prefiro acreditar que um elefante seja capaz de voar do que imaginar que um religioso possa mentir”.
Thomas More
Thomas More, condenado a morrer decapitado por não aceitar o cisma da Igreja Anglicana, não perdeu o bom humor nem mesmo no dia de sua morte. Apoiado no braço do tenente da torre pedia sua ajuda para subir no cadafalso e acrescentou: “Para descer, eu me virarei sozinho”. Depois de lida a sentença: condenado por permanecer fiel à Igreja Católica, dirigiu-se ao carrasco e disse: “Tenha coragem! Cumpra seu ofício; mas meu pescoço é muito curto, cuidado para não manchar sua honra!” Finalmente, ao colocar o pescoço na guilhotina, afastou a barba, que crescera na prisão, e disse: “Não corte minha barba. Pelo menos ela não traiu o rei”.
Santo Agostinho
No livro “Cidade de Deus” tece uma crítica à multiplicidade dos deuses pagãos: “Dá-se somente um porteiro a uma casa; não é mais do que um homem, e basta. Mas é preciso três deuses: Fórculus para a porta, Cárdea para os gonzos e Limentinus para a soleira. Fórculus, sozinho, não poderia cuidar ao mesmo tempo da porta, dos gonzos e da soleira?”
Santa Teresa de Ávila
Certo dia em que ofereceram deliciosos quitutes a Santa Teresa de Ávila e a São João da Cruz, ele disse: “Se se pensasse na justiça de Deus, não se comeria jamais”, mas ela respondeu: “E se se pensasse em sua bondade, se comeria sempre”.
Outras Histórias...
Para consolar um jovem monge, aflito por sua feiura, o ancião lhe diz: “A feiura tem uma grande vantagem sobre a beleza: Ela dura!”
Um irmão foi procurar Elias, o solitário, e disse: “Conheci um homem que tinha uma grande ideia dele mesmo”. “Está certo – respondeu Elias – que quando alguém tem uma grande ideia de si mesmo, é a única grande ideia que ele tem”.
Um irmão que tinha deixado o mundo para viver no deserto recebeu da sua família a seguinte mensagem: “Volta para casa! Não corre atrás do impossível. O único valor autêntico é a família”. No verso da mensagem encontrava-se, entretanto, escrito: “Uma vez que tu decidas voltar, avisa-nos a tempo, porque alugamos o teu quarto”.
Pai Euloge disse: “Não me fale de monges que não riem jamais. Eles não são sérios”.
A professora preparava seus alunos para a visita do vigário. “Se o vigário perguntar: ‘Quem vos criou?’ No mesmo instante o Antônio se levanta e diz: ‘Foi o Bom Deus que me criou!’”. No dia da visita, o vigário pergunta: “Meus filhos, quem vos criou?”. Silêncio na sala de aula. Uma garotinha, percebendo o embaraço da professora, se levanta e diz bem alto: “Sr. Vigário, o menino que o Bom Deus criou não veio hoje. Ele está doente”.