terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Mil cores para amar

É senso comum a dificuldade de relacionamento entre os seres humanos. Ouve-se – ou diz-se – com freqüência: “Onde há relação humana, há conflito”. Muito dessa dificuldade vem, certamente, do fato de não acolher as diferenças como riqueza, mas como ameaça; de não se colocar no lugar do outro e de não fazer a ele o que gostaria que ele fizesse a nós.
Temos, muitas vezes, a tendência a rejeitar aquilo que é diferente de nós. Assim, queremos que os outros pensem como nós, façam as escolhas que fizemos. Como cada um é único e irrepetível, surgem a indiferença, a intolerância, o preconceito, o racismo, a guerra.
E isso se dá em todos os aspectos. Vemos, por exemplo, a “guerra dos sexos” (quantos relacionamentos se desfazem porque os homens não conseguem entender as mulheres e vice-versa); o “conflito entre as gerações” (crise entre pais e filhos, entre irmãos que estão na adolescência e os que estão na infância); a intolerância religiosa (na Irlanda, católicos e protestantes se digladiam há décadas; no Oriente Médio, palestinos e israelitas lutam há séculos); a guerra entre grupos, etnias e países...
Travamos combate por causa das coisas mais simples e “insignificantes”. Quantas vezes, por exemplo, nos deparamos com alguém que não vota no nosso candidato e logo a tachamos de “antipolitizada” ou “alienada” e a rejeitamos, ou mesmo encontramos uma pessoa tão diferente de nós fisicamente e logo, gratuitamente, a antipatizamos: “Não vou com a cara de fulano”.
Diz-se hoje que a tolerância é uma forma de poder e que o Brasil está relativamente bem nisso, pois aqui judeus e árabes sentam-se juntos, a mulata e a loira dividem o mesmo espaço nas escolas de samba etc. Mas que bom será quando, realmente, aprendermos a respeitar e valorizar as diferenças, a amar a pátria do outro como se nossa fosse, amar o time de futebol do outro como amamos o nosso, a sofrer com as dores do outro e nos alegrar com seus êxitos...
Convém aprender a olhar as diferenças sob outro prisma. Já pensaram que monótono se num jardim houvesse um só tipo de flor: toda a área coberta pela mesma cor, pelo mesmo perfume?! O mesmo seria com o mundo, se todos fôssemos iguais na cor da pele, na cor e textura dos cabelos, na forma de pensar e viver. Sinto muito, mas tenho de discordar do compositor que diz: “Se todos fossem no mundo iguais a você, que maravilha viver!”.
Um lugar privilegiado para esse aprendizado é a escola. Como professora do ensino fundamental, tenho me exercitado em viver essa realidade com meus alunos, e como é bom ver que aquela criança que no início era marginalizada – por pensar lento, por sujar tudo ou por “bagunçar” – de repente é aceita e incluída na turma. Isso me faz esperar um futuro mais propenso à paz.
O respeito ao diferente não exige de nós uma miscigenação, mistura ou perda da própria identidade. Ao contrário, devo me conhecer profundamente, sondar meu coração e saber quem sou. Então, firme naquilo que sou, estarei aberta a aceitar o outro com as suas diferenças, respeitando-o mesmo quando discorda de mim.
Assim deve ser entre nós. Acreditar que aquele que tem outra cor, outra forma de vestir-se, outra crença, outro idioma, que vive numa outra cultura não é um candidato à guerra, mas à unidade, a enriquecer a minha cultura, a embelezar o mundo. Isso me faz lembrar uma bela canção: “Nossa terra é um planeta colorido no imenso universo a girar. Cada povo é riqueza sem limites, gente nossa, mil cores para amar”.
Ter uma sociedade, ou melhor, construir uma sociedade assim requer esforço, pois é necessário saber escutar, dialogar, desarmar-se, recomeçar, perdoar e pedir perdão, saber perder.
É preciso, pois, buscar e construir a unidade na diversidade. Quando houver, de fato, o respeito ao princípio da universalidade da natureza humana, a valorização e o amor a cada cultura, povo, etnia, então viveremos, realmente, como membros de uma mesma família humana. Se parece uma utopia, se não podemos fazer da humanidade inteira essa realidade, certamente podemos construí-la no ambiente em que vivemos, com aqueles que nos cercam e que fazem parte do nosso cotidiano. Eis um bom começo!

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