sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

A alegria e o humor dos cristãos

“Alegrai-vos sempre no Senhor; repito, alegrai-vos!” Esta ordem que São Paulo deixou como legado à Igreja, algumas vezes é esquecida. Não raramente, as pessoas pensam ser a alegria incompatível com a vida entregue a Deus; criam na sua fantasia um protótipo de cristão que não condiz com a realidade: extremamente sério, até mesmo carrancudo, fechado, que nunca brinca nem ri jamais.
Entretanto – não apenas a alegria! –, humor e fé não são incompatíveis! Rir é próprio do homem – alguém já viu um cachorro rir? Filosoficamente, podemos concluir: se o homem é imagem de Deus, logo o riso também é um “atributo” divino. Por isso, o humor é uma coisa séria demais para ser confiada aos piadistas ou “desfrutado” apenas pelos não-crentes.
A alegria é necessária ao cristão! Jesus mesmo disse: “Que a minha alegria esteja em vós e que a vossa alegria seja completa” (Jo 15,11). E por muitas vezes o tema da alegria é retomado nas Escrituras!
A história da Igreja também é cheia de exemplos e de ensinamentos acerca da alegria. Olhando a vida dos santos, em praticamente todos eles encontramos momentos hilários ou palavras dirigidas acerca da alegria. Citando apenas um, São João Clímaco diz: “Deus não pede nem deseja que o homem se aflija; prefere que ele se rejubile e ria por causa do amor que Deus prova por ele”.
Podemos daí concluir que Deus tem senso de humor. Quando convivemos com uma pessoa, acabamos de uma forma ou de outra assimilando características suas. Quanto mais rezamos, mais vemos a vida de forma bela e engraçada, logo, é possível afirmar que é assim que Deus a vê, apesar de tudo!
Humor, o que é?
O Dicionário Larousse dá uma boa definição do humor: “Forma de espírito que se ocupa a denunciar sem acusar e com aparente impassividade os aspectos engraçados, insólitos ou absurdos da realidade que parece a mais normal possível”.
O humor, na verdade, é aquele refinamento que torna o homem mais agradável aos seus semelhantes e é uma excelente prevenção contra a angústia. Diante de uma situação difícil, temos duas opções: nos distanciar um pouco e rir, ou ficar presa a ela e nos angustiar. Há coisas bem sérias que devem ser tratadas como tais, mas muitas das que damos essa classificação não a merecem se as olhamos do alto.
A alma humana é imensa, por isso é tão fácil ao homem se enrolar nos problemas, por não conhecê-la tanto. O humor é um remédio contra isso, dá leveza à vida e faz apreciar as coisas de forma mais colorida; ajuda-nos a tomar certa distância dos problemas: de longe, as colinas não têm mais aparência de montanhas, então compreendemos o que verdadeiramente tem importância e o que não tem.
O humor é diferente da ironia, que ridiculariza e zomba; ao contrário, combina com a indulgência e a benevolência. É preciso pedi-lo a Deus e aprender a exercê-lo, antes de qualquer coisa, a respeito de si mesmo. O humor dá clareza ao olhar, o senso real da vida, coloca as coisas em seu devido lugar.
Na vida espiritual, o humor diante das coisas de Deus é um ponto considerável. Quantas vezes arquitetamos projetos que vêm desarranjados pela liberdade amorosa de Deus! O que fazer? Angustiar-se, perder a confiança e não ir adiante, ou, pelo contrário, aceitar e apreciar o cômico da situação, ter senso de humor e permitir que as coisas se tornam leves.
Certa vez alguém disse: “Você quer fazer o bom Deus rir? Fale a Ele dos seus projetos”. Se se pede a Deus o senso de humor, Ele vai dar, e cada um o recebe na sua própria maneira e na sua própria medida.
Alguns casos para rir
Conto agora algumas histórias que mostram o quanto é gostoso apreciar a vida com humor.
Winston Churchill assistiu à inauguração de sua própria estátua. “Que impressão você teve?”, perguntou um amigo. “Só posso dizer uma coisa – respondeu ele –, a partir de agora, vou olhar os pombos de um outro ângulo”.
O Papa Leão XIII festejava seu 90º aniversário. Passava pela multidão todo paramentado. As senhoras piedosas de Roma gritaram: “Possa o senhor viver cem anos, Santo Padre”. O Papa, que já tinha 90, responde de improviso: “Minhas filhas, por que limitar as bondades da Providência divina?”
Uma irmã consagrada no Movimento dos Focolares subiu ao palco para dar seu testemunho. Na tentativa de puxar o microfone para mais perto de si, encontrou-se com o pedestal quebrado nas mãos; então, com bastante senso de humor, olhou para o público e disse: “Inaugurei bem!” Todos começaram a rir, inclusive ela; consertou-se o pedestal e ela iniciou sua fala.
O humor na vida dos santos
Como foi dito antes, é muito comum encontrar na vida dos santos episódios engraçados, que revelam sua forma pitoresca e bem humorada de ver o mundo. Aqui, elencamos alguns.
Santo Tomás de Aquino
Um dia, um irmão chamou Tomás de Aquino: “Venha rápido à janela, irmão Tomás, um elefante voa! Tomás correu à janela e todos riram de sua ingenuidade. Santo Tomás respondeu: “Prefiro acreditar que um elefante seja capaz de voar do que imaginar que um religioso possa mentir”.
Thomas More
Thomas More, condenado a morrer decapitado por não aceitar o cisma da Igreja Anglicana, não perdeu o bom humor nem mesmo no dia de sua morte. Apoiado no braço do tenente da torre pedia sua ajuda para subir no cadafalso e acrescentou: “Para descer, eu me virarei sozinho”. Depois de lida a sentença: condenado por permanecer fiel à Igreja Católica, dirigiu-se ao carrasco e disse: “Tenha coragem! Cumpra seu ofício; mas meu pescoço é muito curto, cuidado para não manchar sua honra!” Finalmente, ao colocar o pescoço na guilhotina, afastou a barba, que crescera na prisão, e disse: “Não corte minha barba. Pelo menos ela não traiu o rei”.
Santo Agostinho
No livro “Cidade de Deus” tece uma crítica à multiplicidade dos deuses pagãos: “Dá-se somente um porteiro a uma casa; não é mais do que um homem, e basta. Mas é preciso três deuses: Fórculus para a porta, Cárdea para os gonzos e Limentinus para a soleira. Fórculus, sozinho, não poderia cuidar ao mesmo tempo da porta, dos gonzos e da soleira?”
Santa Teresa de Ávila
Certo dia em que ofereceram deliciosos quitutes a Santa Teresa de Ávila e a São João da Cruz, ele disse: “Se se pensasse na justiça de Deus, não se comeria jamais”, mas ela respondeu: “E se se pensasse em sua bondade, se comeria sempre”.
Outras Histórias...
Para consolar um jovem monge, aflito por sua feiura, o ancião lhe diz: “A feiura tem uma grande vantagem sobre a beleza: Ela dura!”
Um irmão foi procurar Elias, o solitário, e disse: “Conheci um homem que tinha uma grande ideia dele mesmo”. “Está certo – respondeu Elias – que quando alguém tem uma grande ideia de si mesmo, é a única grande ideia que ele tem”.
Um irmão que tinha deixado o mundo para viver no deserto recebeu da sua família a seguinte mensagem: “Volta para casa! Não corre atrás do impossível. O único valor autêntico é a família”. No verso da mensagem encontrava-se, entretanto, escrito: “Uma vez que tu decidas voltar, avisa-nos a tempo, porque alugamos o teu quarto”.
Pai Euloge disse: “Não me fale de monges que não riem jamais. Eles não são sérios”.
A professora preparava seus alunos para a visita do vigário. “Se o vigário perguntar: ‘Quem vos criou?’ No mesmo instante o Antônio se levanta e diz: ‘Foi o Bom Deus que me criou!’”. No dia da visita, o vigário pergunta: “Meus filhos, quem vos criou?”. Silêncio na sala de aula. Uma garotinha, percebendo o embaraço da professora, se levanta e diz bem alto: “Sr. Vigário, o menino que o Bom Deus criou não veio hoje. Ele está doente”.

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