quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Livro: Como um místico amarra os seus sapatos

Como um místico amarra os seus sapatos
O segredo das coisas simples

Lorenz Marti
Editora Vozes

Marti fala sobre a expectativa que muitas vezes temos de que o místico seja um ser quase sobrenatural, que faz as coisas de maneira extraordinária. Então ele perpassa momentos vividos por místicos de religiões diversas e sua observação revela que o que torna o místico um ser surpreendente é o modo como ele realiza as atividades mais corriqueiras, como ele dá sentido àquilo que é normal e corriqueiro no cotidiano do ser humano.
Relembra a afirmação agostiniana de que “O coração inquieto é a raiz da peregrinação”. Aliás, convida a nos tornarmos “gente do caminho”, como eram designados os primeiros cristãos. Evoca um antigo ditado: “Devemos caminhar como peregrinos, livres, despojados e verdadeiramente vazios. Juntar coisas, segurar e agir muito só torna o nosso andar pesado”.
Indica a justa medida do olhar sobre si: “Quando giro em redor de mim mesmo, eu afundo... Não preciso com isso perder a visão de mim mesmo. Mas preciso parar de olhar apenas para mim mesmo”.
Fala da beleza de nos sentirmos sempre no início, ou seja, por mais que tenhamos vivido ou feito ou aprendido, nunca é o suficiente, sempre há muito a fazer e a aprender. “O espírito do principiante é como uma criança pequena que descobre o mundo”.
O espírito do principiante aproxima da criança. Segundo Marti, é preciso aprender a perguntar como criança, com o espírito aberto de fato. Algumas vezes perguntamos, mas como imperador, de cima do trono, com a postura de quem, mais que perguntar, ordena, sabe tudo, pode tudo. “Imperador e criança: ambos convivem em mim... posso aprender a descer do trono da minha prepotência e redescobrir o mundo aos pés de uma criança”.
Ele defende que a espiritualidade é uma declaração de amor ao que é totalmente comum. Às coisas corriqueiras do cotidiano, em geral, não atribuímos valor e, por isso, simplesmente, tentamos fazê-las apressadamente, para liquidá-las. “O importante é que estou envolvido naquilo com todo o meu coração, e não simplesmente “liquidando” algo. E que sei valorizar aquele momento. E que permaneço e não fujo em pensamentos a algum futuro imaginário”.
Algo digno de nota, também, quando se fala em mística e espiritualidade, é, sem dúvida, o fato de não se levar muito a sério. Marti cita o escritor inglês G.K. Chesterton: “Os anjos voam porque não se levam muito a sério, sentem-se leves”.
Finalmente, a importância do outro, afinal “      Minha vida não pode ser separada da vida de outras pessoas, da vida dos animais, das plantas e das árvores. Eu dependo delas e elas precisam de mim... A capacidade de dedicar-se aos outros e cuidar deles é o que torna o ser humano especial”.
Para finalizar, uma pérola de Francisco de Sales: “Proteja-se contra a pressa, a tristeza e o medo”. E ainda a lembrança de que o mundo é como um espelho. Reza a lenda que o fabulista Esopo estava sentado à beira de uma estrada perto de Atenas quando um viajante perguntou-lhe: “Como são as pessoas em Atenas?” Esopo respondeu: “Diga-me primeiro de onde você vem e como são as pessoas de lá”. O viajante falou: “Venho de Argos, onde as pessoas são antipáticas, incorretas e briguentas, por isso fui embora”. Esopo, então, falou: “Que pena, pois em Atenas as pessoas também são assim”. Um pouco mais tarde passou outro viajante, que perguntou a Esopo a mesma coisa. E, quando Esopo lhe perguntou de onde vinha e como eram as pessoas lá, respondeu entusiasmado: “Venho de Argos, onde as pessoas são gentis, abertas e hospitaleiras”. Esopo falou: “Que bom, pois em Atenas as pessoas também são assim”.


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